De Papo Comigo

Antidepressivos e seus efeitos colaterais

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Por Helô de Castro

Tomei antidepressivos por quatro anos. A experiência foi ao mesmo tempo muito boa e muito ruim. É isso que vou contar aqui, lembrando que cada caso é diferente.

A depressão

Depressão não é necessariamente tristeza e vontade de morrer como muita gente pensa. No meu caso, por exemplo, a depressão se manifestou como apatia, falta de motivação e interese em qualquer coisa. Na verdade, só conseguia gostar de ver filmes e mais nada. Levantar da cama, ir ao mercado, trocar de roupa, cozinhar e qualquer outra tarefa rotineira se tornou um suplício. Também não via luz no fim do túnel. Era difícil enxergar as soluções, tudo parecia sempre ser muito complicado e houve uma total falta de esperança e de confiança. Perdi o interesse na vida social, em dançar, em conversar etc, até porque tudo parecia muito trabalhoso.

Houve também momentos de tristeza e baixo astral. A visão parecia mais acinzentada, os sonhos ruins e o olhar sobre  o mundo era repleto de dó. Mesmo que visse uma cena feliz entre pessoas celebrando algo, namorando, dançando , fazendo turismo ou seja lá mais o que, a tendência era sentir pena dos pobres infelizes.

Para mim ficou completamente claro o motivo pelo qual alguns pais deprimidos matam seus filhos e se suicidam; na verdade eles tentam aliviar as crianças do sofrimento que carregam. É um ato de piedade.

As drogas usadas

Quando tomei meu primeiro antidepressivo(Citalopran), fiquei encantada! Rapidamente senti enorme motivação, achei que estava entrando no paraíso, mas durou pouco. Logo o entusiasmo baixou e o sono ininterrupto chegou. Não dava nem para trabalhar direito, pois só pensava em dormir. Nestas condições não deu para continuar e a médica trocou por fluoxetina.

Os efeitos colaterais nas primeiras 6 semanas são bem fortes e muitos passam com o tempo. Então vou descrever os efeitos que se tornaram permanentes, tanto positiva quanto negativamente.

O bom

É um paraíso mental, um mundo novo, um transplante de cérebro, uma nova alma. Descobri na pele que o estado mental é tudo para o bem-estar. Minha visão do mundo ficou clara, positiva, otimista, feliz, deslumbrada, encantada. Passava todo meu dia bem humorada e rindo dos meus pensamentos engraçados. Parei de me preocupar com a opinião das pessoas, e elas tinham muito pouco ou nenhum poder de afetar meu humor e alto astral. Mesmo que algo me aborrecesse, rapidamente superava e já me concentrava no que me dava prazer. Não me desequilibrava com facilidade e passei a perceber o quanto as pessoas fazem tempestades em copo d’água, inclusive euzinha no passado. Ria dessas situações. Não me abalava com quase nada e fiquei muito pouco emotiva, na verdade chorei poucas vezes e, somente em situações tristes de filmes. Não lembro de chorar por questões pessoais. Fiquei confiante e passei a fazer coisas que realmente gostava. Também fiquei fascinada por cores vivas e passei a pintar quadros. Os sonhos eram abundantes, agradáveis e ricos em detalhes. Era delicioso dormir.

O ruim

O ruim é basicamente ligado as condições físicas, que, no meu caso, criaram o efeito oposto ocorrido as condições mentais. Foram:

Engorda exagerada, queda radical da libido, fadiga crônica, incontinência urinária, compulsão alimentar, coceiras e eczemas, anemia, carências vitamínicas e de ferro, hipotireodismo, dores de cabeça quase diárias, sono desregulado, tremor constante e boca seca.

A fadiga

Não posso afirmar que alguns dos sintomas são relacionados aos antidepressivos, mas com certeza, o pior de todos, a fadiga crônica, foi um efeito colateral. Com o tempo o cansaço foi se exarcebando e o processo de engorda contínuo. Ironicamente, eu passei a ter os mesmos sintomas que me levaram a tomar o antidepressivo, com a única diferença de que estava agora mentalmente bem.

Não dava para ler um livro sem sentir sono. Eu dormia horas, acordava e alguns minutos depois estava com sono de novo. Acordar pela manhã tornou-se um martírio e o trabalho começou a ficar comprometido com os atrasos e as faltas.

Como precisava cozinhar para mim mesma, acabava comendo pão, chocolate, pizza, biscoito, pois só em pensar em fazer comida ficava exausta. Abrir embalagem me dava preguiça. Dormi, pelo menos, uns 30% das noites destes quatro anos debruçada sobre a mesa do meu computador, pois não conseguia levantar e andar um metro e meio de distância até a minha cama. Acredito que uns 70% das noites foram com todas as luzes acesas, pois não tinha disposição para desligá-las, apesar do controle remoto ficar do meu lado na cama…haha! Pensar em ir na rua para comprar algo levava séculos, pois ficava pensando em todo o processo que ia desde colocar a roupa, o sapato, girar a chave, descer a escada… uma tortura!

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O ganho de peso

O segundo efeito colateral desagradável foi a engorda exagerda, apesar de que fiquei uma gorda feliz. Não havia muita paranóia sobre o que estavam pensando a meu respeito. Eu sabia que seria temporário e que com o tempo recobraria o equilíbrio, mas mesmo assim não foi confortável, pois engordar significa perder as suas roupas, sentir dor nos calcanhares, andar mais devagar, sentir mais cansaço, não cruzar mais as pernas, esbarrar mais nas coisas etc. O lado positivo foi que estar gorda me tornou invisível e achei essa experiência poderosa. Pela primeira vez observei o mundo mais a vontade sem que o mundo me visse. Olhei o abismo, mas ele não me olhou de volta, e eu vi graça.

Não senti falta das pessoas e nem necessidade ou  aprovação delas.  Fiquei tolerante a cenas violentas, sanguinolentas e degradantes. Achei ótimo! Mas também adquiri repulsa por imagens com características espinhosas.

A comunicação

Passei todo o período em reclusão voluntária, pois achava que minha companhia e as histórias dos meus livros eram mais interessantes do que pessoas fazendo as mesmas perguntas de sempre e repetindo os mesmos clichês. Não tolerava a idéia de ter que conversar sobre assuntos cotidianos, se em vez disso podia estar aprendendo sobre coisas que realmente me interessavam. Não via mais graça no meu estilo de vida anterior. Ficar em casa foi uma experiência rica e de muito amadurecimento.

A minha capacidade de memorizar se deteriorou bastante nesse período. Posso até dizer que regredi na habilidade de me comunicar em outro idioma, embora tenha evoluído drasticamente em leitura. Fiquei com preguiça de falar.

O fim do uso

Com a retirada do antidepressivo, rapidamente fiquei mais emotiva, recobrei a libido, saí da fadiga, passei a emagrecer lentamente, voltei a ser mais agressiva, contestadora e indignada, perdi os tremores, sumiram as dores de cabeça, diminuiu a compulsão alimentar e a incontinência urinária, recobrei a disposição para falar e a memória melhorou. Infelizmente, como herança negativa ficou um problema digestivo(que surgiu após), taquicardias decorrentes do problema digestivo e o pior de tudo, nunca mais tive sonhos tão maravilhosos!

Veja também:

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