Eu, uma assediadora sexual

 

Estava vendo o caso do Morgan Freeman, dentre tantos outros que rolam por aí, e percebi que se eu fosse celebridade, nessas horas eu também estaria em maldição, acusada de assédio e na porta do xilindró. E… olha, que eu sou uma pessoa bem comportada!

De fato, é complicado separar o que para um é brincadeira, espontaneidade e estilo, do que para outro é invasão, constrangimento e abuso sexual.

 

Essa é uma divisão que começou a ser estabelecida há pouco tempo, e as gerações -sacaninhas – mais antigas estão pagando por coisas que em seu tempo eram comportamentos normais, ou, pelo menos, não eram tão claramente definidos como algo criminoso.

Antes, eram comuns insinuações mais safadas. Um toquezinho no joelho de um, uma alisada nas costas de outro, uma arrochada de leve quando a pessoa está passando num lugar apertado, um comentário meio “Wando”, um olhar 43… tudo isso era interpretado como avanços pequenos e inconvenientes(quando o outro não tinha interesse), mas nada que traumatizasse ou estragasse para sempre a vida do indivíduo.

Hoje, creio eu, essas situações estão sendo trazidas à tona descontextualizadas e transformadas num bicho-de-sete-cabeças. Veja bem, não estou falando de ameaçar uma pessoa de perder o emprego se não satisfizer os caprichos sexuais de um outro detentor de influência e, muito menos, estou falando de dopar pessoas e estuprá-las. Mas… tocar nas costas e falar que está sexy? Há décadas atrás?

Meus crimes

  • Como fui professora de danças de salão, cansei de viver colocando as mãos nas pernas e, até, na bunda dos alunos.
  • Já apertei as pernas de alguns alunos e falei: “Que pernas durinhas!”
  • Também vivia pedindo para colocarem as mãos nas minhas costas ou outras partes do corpo para poderem sentir como o músculo funcionava em um determinado movimento.
  • Um dia, exemplifiquei do porquê dos homens deveriam retirar as mãos num determinado passo e dei uma mostra com uma aluna e, para tal, passei as mãos nos peitos dela – que deu um grito! Haha!!! O intuito era realçar exatamente isso, o que iria acontecer se não retirassem o braço. Não vi nada demais no que fiz e me surpreendeu a reação dela, sobretudo por ser uma mulher de mais de cinquenta anos… mas ela se envergonhou!
  • Quando homens me agradeciam por alguma coisa que eu tinha dado ou algum favor que eu tinha feito, normalmente respondia que não precisava agradecer não, pois ele iria me pagar com favores sexuais… e ria! Sabia que era grosseirão, uma brincadeira de mau gosto, mas que eu não enxergava como assédio.
  • Quando uma mulher estava “vestida para matar”, eu falava: “Nossa! Tá gostosona, hein! Que que se vai aprontar!!!”(ou coisa do gênero). Hoje seria acusada de expor a sexualidade dela.
  • Um aluno que sempre ia de calça comprida chegou de short e eu disse: “Nossa, fulano, que pernão bonito que você tem!”. Hoje seria desrespeito, insinuação ou sei lá mais o quê.
  • Cansei de conversar com homens estranhos e falar sobre temas da sexualidade. Hoje seria assédio.
  • Já gostei de estar com o corpinho colado(dançando) com alguns homens que não tinham nenhum interesse por mim. Ele foi uma vítima da minha lascívia?
  • Já dancei muito com um rapaz menor de idade, que eu sabia que ele estava a fim de mim. Fui pedófila?

Aulas de danças de salão na atualidade

Fico me perguntando como fazem os professores particulares de danças de salão hoje em dia, pois não tem como se evitar de dizer para o aluno colar mais o corpo com o seu…ou te abraçar mais… ou, ainda, pegar numa parte do corpo do aluno para ajudar no movimento.

Dei muitas aulas privadas, sem a presença de ninguém, para homens que mal conhecia. Será que se o aluno ou o professor sugerir um encontro desse vai ser mal interpretado?

Bem, eu, particularmente, não acredito que esse decoro todo tenha chegado às danças de salão, porém não duvido que em breve voltemos aos tempos de dançar minuetos.