Faxina, uma profissão que suja a alma

 

Ok, ok! Antes que me digam que toda profissão é digna e blá, blá blá… já vou logo dizendo que qualquer trabalho vale à pena quando você não tem opções melhores e é preciso pagar as contas. Então, se faxina é o tem para fazer: faz! Mas, o meu objetivo é mostrar como o trabalho de faxineiro pode estar dentre os piores que existem; não é preconceito! Também não é uma questão subjetiva… a profissão é uma bosta mesmo!

Só sobe na escada

A única forma de crescimento como faxineiro é trabalhando mais para ganhar mais dinheiro, o que significa se sobrecarregar de um trabalho ruim. Pode até haver algum faxineiro com espírito empreendedor, que crie uma empresa de limpeza, mas, esteja certo, isto é uma exceção.

Déjà vu da tortura

O faxineiro para conseguir uma boa renda precisa, na maioria das vezes, limpar mais que uma casa por dia. Isso significa que tem que pegar um transporte, chegar no local, limpar sala(s)-quarto(s)-banheiro(s)-corredor(es)-escada(s)-hall(s)… às vezes, deve passar roupa ou até colocá-las para lavar. Depois disso, pega outra condução e vai para um outro local e começa tudo de novo: sala(s)-quarto(s)-banheiro(s)-corredor(es)-escada(s)-hall(s)…

Nó nas ideias

Você acha que o faxineiro consegue encadear pensamentos criativos e ideias brilhantes ao mesmo tempo em que esfrega daqui, aspira dali? Claro que não! Atividades repetitivas e monótonas interrompem o fluxo do pensamento.

Zumbi mode

A faxina é uma atividade monótona e, muitas vezes, solitária. Depois de um tempo se entra numa espécie de zumbi mode.

Nervos a mil

Nada é mais estressante do que correr contra o relógio numa atividade chata, especialmente quando o faxineiro tem um tempo restrito para fazer todo o trabalho.

Não dá para bater com a vassoura

É comum que tenha que trabalhar na presença das pessoas da casa. Zero de privacidade. O pior é que, muitas vezes, essas pessoas ficam no caminho atrapalhando, e não dá para o faxineiro pedir que se retirem para que possa fazer seu trabalho em paz.

Em território estranho

A faxina é feita dentro da casa de alguém. Não é o mesmo que trabalhar num território neutro, em que a pessoa sente que é parte daquele ambiente. Não! A casa do outro é um local em que o trabalhador se sente deslocado e, até, desprotegido.

Salário merreca e voador

Aqui, muita gente vai dizer: “Salário baixo que nada! Minha faxineira ganha R$ xxx”. Quem diz isso não se toca que a faxineira vive na informalidade: não tem férias pagas, não tem feriado remunerado, não tem licença médica, não tem aposentadoria e nem 13º salário. Se ficar de cama ou quebrar a perna vai ter que se sustentar com as economias que vem juntando(caso consiga). Nenhum cliente banca a faxineira que precisou faltar porque adoeceu. Há até quem sai de férias e pede para a faxineira não comparecer, deixando a pobre sem um puto sequer.

Trabalho mole

Muitos acham que é um trabalho super fácil: é só para passar um paninho aqui, dar uma varridinha alí, ajeitar acolá!”; porém, esse abestado não se dá conta de que faxina é feita de detalhes, e o faxineiro tem que estar atento a eles, caso contrário algo vai ficar sujo, e o néscio ainda vai reclamar que o trabalhador está fazendo corpo mole.

Medalha de pó

Há até quem agradeça e diga que fica feliz no dia em que o faxineiro limpa sua casa e que tudo fica cheirosinho e limpinho, mas, no geral, a maioria das observações consistem em pedir para limpar um pouquinho mais em algum lugar.

Status pó

Mesmo na Europa, essa é uma profissão com baixo status social. Se a pessoa diz “sou faxineiro”, os rostos dos que ouvem ficam constrangidos, decepcionados e, quase sempre, o assunto morre. Faça o teste!

Festa? Só como servo!

É muito raro o cliente convidar o faxineiro para um evento em sua casa. Também não há homenagens. Ninguém faz uma festa ou um jantar especial para comemorar os dez anos em que o faxineiro trabalha para ele.

Manchas do passado

Se o faxineiro resolve mudar de profissão, dificilmente em seu currículo constará seus anos de faxina. Por mais que ele tenha orgulho do seu período de batalha, ele sabe que as pessoas são preconceituosas e verão aquilo como uma incapacidade de lutar por algo melhor.

O marketing da boa vontade

É um tipo de trabalho que funciona à base de recomendação. Não adianta marketing digital e nem distribuição de  panfletos, pois as pessoas temem colocar em suas casas pessoas sem referência. Isso faz com que se diminua muito as chances de se conseguir um grupo maior de clientes e se cria uma dependência da boa vontade dos clientes ou de outros colegas faxineiros para a divulgação do trabalho que faz.

Desalmado

Quando falo em desalmado, quero me referir à falta de expressão pessoal, que seria a habilidade de fazer algo que corresponda a um anseio mais profundo do indivíduo; algo que vem da alma, como uma vocação, um dom e a utilização de um talento. Quantas vezes você ouviu alguém dizer que seu sonho de vida é ser faxineiro? Eu nunca ouvi.

LER, muito!

As Lesões por Esforço Repetido e os “jeitos” são constantes na vida do faxineiro.

 

 

Cheirador de pó e intoxicado

A poeira contém um amontoado de bactérias, vírus, substâncias químicas, metais pesados… Imagina aspirar isso todos os dias durante horas? Além disso, há o contato incessante com produtos nocivos, que lançados por borrifadores, se espalham no ambiente e caem sobre a pele. Por mais luvas e máscaras que se use, é difícil escapar do contato tóxico com os produtos.

Acidentado e extorquido

Pode rolar dois tipos de acidentes: o primeiro é quando, por exemplo, o faxineiro bate com a cabeça ou cai de uma escada; o segundo é quando o faxineiro quebra algum objeto da casa e acaba correndo o risco de ser cobrado pelo prejuízo. Obviamente, isso acontece quando o faxineiro tem o azar de ter um cliente ruim.

Clientes ruins

Há pessoas que associam fazer faxina com escravidão e subserviência. Acham que o faxineiro deve fazer o máximo, no mínimo de tempo – e perfeitamente! Esse é um tipo de cliente que só quer vantagens e não tem a capacidade de perceber a complexidade do trabalho a ser feito e nem empatia e o respeito pelo profissional que está dando o seu melhor em algo que ele mesmo, o empregador, não tem saco para fazer.

A máfia da faxina

Sim! Claro!!!! Há também os mafiosos que se dão bem em cima do inocentes ou dos desesperados. Há casos, por exemplo, de pessoas que não querem ou não precisam mais de um trabalho, mas em vez de passá-lo para uma outra que precisa, como as pessoas dignas fazem, essas almas sebosas vendem o trabalho. Há faxineiros que submetem outros faxineiros a estágio não remunerado… o cara faz a metade do trabalho com ele, mas não ganha nada porque está em fase de aprendizado. Há até os traficantes de influência, mas… isso é outra história!