Investigando Amélia, a mulher de verdade

Investigando Amélia

Já me bateu há muito tempo que talvez não sejamos totalmente justos com Amélia, a moça pobre e sem vaidade que ganhou fama como símbolo da submissão feminina. Não é só isso! Amélia é mencionada como a mais degradante espécie de mulher servil e resignada que mancha a honra de todas as outras. É um xingamento ser chamada de Amélia!

Mas eu, apesar do meu feminismo atávico, confesso que acredito ser Amélia vítima de haters polarizados dos anos quarenta. A música é machista? Sim! Mais do que isso: a música é discriminatória, já que presume que mulher de verdade não tem vaidade(parece um slogan! haha!). Mas o autor também poderia dizer que mulher para ser de verdade teria que ser peituda… ou ruiva… ou magra… ou gorda… ou prostituta… ou intelectual… ou independente… ou rica… ou…ou…ou… Para algumas dessas opções ele seria discriminador, mas não necessariamente machista.

Agora, vou me ater às evidências que indiquem (ou não) que Amélia era realmente um pano-de-chão em forma de mulher. Vou me concentrar nas informações dadas pelo letrista(Mário Lago).

 Veja também: Emília: a verdadeira Amélia?

 

Contexto Amelístico

1º Amélia não pensava em luxo e riqueza e não tinha vaidade.

Isso apenas nos diz que ela era modesta, sem ambição e conformista… aceitava bem a vida que tinha… mesmo que não fosse lá grandes coisas(segundo o critério de sei lá quem!). Nenhuma dessas características indicam submissão de gênero. Um homem pode ser sem vaidade, sem ambição e conformista e isso não significa que seja obediente a uma mulher… ou que cozinhe, lave, passe e apanhe dela.

2º Amélia dependia dele economicamente?

A música nos dá a entender que sim(e isso era típico dos anos quarenta). Entretanto, a “Você”, que só pensa em luxo e riqueza, também dependia dele, o que faz com que se equipare à Amélia no quesito submissão econômica. Até aqui não há nada que destaque Amélia como sendo mais capacho do que as outras milhares de mulheres ao redor do planeta.

3º Amélia passava fome e achava bonito não ter o que comer.

Me parece que uma forte influência religiosa fazia com que ela associasse penúria a um estado elevado de alma, uma forma de purificação ou qualquer outro blá,blá,blá romântico-religioso comum até muito recentemente, quando se via a pobreza como sinônimo de humildade, grandeza moral, pureza de espírito etc.

Além disso, Amélia expunha a sua forma de ver a vida, conversava com o parceiro sobre a situação que estavam vivendo e, embora não buscasse uma solução ou fizesse nada para sair da crise, também não exigia nada do outro.

Em nenhum momento o autor diz que ela passava, cozinhava, lavava, era sexualmente disponível nos momentos em que ele a desejava, que deixava de comer para que ele o fizesse, que se enfeiasse para não despertar o interesse de outros homens, que perdoava as vagabundagens, que era obediente às determinações dele… Nada indica que ela era chorona, infeliz, coitadinha… portanto, não há fortes indícios de submissão ao homem, mas sim de subordinação a sua condição social e cultural.

A conclusão

Sendo assim, acredito que Amélia foi crucificada devido à afirmação discriminadora e machista de um homem e não por sua obediência a ele.

A música é machista por causa dele, o autor, e não por causa dela,Amélia, pois dela não temos elementos suficientes para garantir que sua submissão era tão generalizada.

Veja também: Samba da benção… para machistas

Contexto especulativo(se é que existe algo assim…haha!)

Imaginemos agora que:

1- Amélia se aproveita do pretexto de estar com fome e pede para o parceiro lavar a pilha de louças, limpar o chão da cozinha, lavar a colcha de chenille e o cobertor de paraíba.

2- Amélia não pensa em riqueza, pois para seus padrões ela se sente como rainha, já que antes era mendiga.

3- Amélia diz que acha bonito não ter o que comer, pois, na realidade, almoça na casa do amante.

4- Aparentemente Amélia morreu, pois presumimos que ele não abandonaria essa tão maravilhosa mulher, entretanto podemos também cogitar a possibilidade de Amélia ter dado um chute na bunda dele e se casado com um cara mais bem sucedido. Talvez, ele(o reclamão) fosse, apenas uma espécie de abrigo temporário, para que ela pudesse se recompor até arranjar coisa melhor na vida. Pode até ser, que depois de tanta pindaíba, tenha se filiado ao Partido Comunista(clandestino na época) e lutado pelas melhorias sociais.

A letra da música: Ai que saudade da Amélia

Veja o vídeo com o sucesso de 1942: