Modas e perseguições na linguagem

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Não se sabe onde elas começam, mas é fato que algumas modas acontecem na língua e se alastram feito praga.  Quando nos damos conta estamos, de alguma maneira, contaminados.

Com a novidade, vem também a intolerância dos críticos histéricos que querem a todo custo impor suas regras.  Vejamos algumas tendências dos últimos anos:

1- Botar

Uma vez, eu falei que iria botar alguma coisa em algum lugar. Então, uma garotinha de cinco anos de idade virou para mim e disse que quem bota alguma coisa é galinha(ovo), que o certo era colocar ou pôr, pois sua professora ensinou assim… e muitos, naquela ocasião, concordavam com isso.

Achei que seria inadequado falar para a pentelha que o preconceito com o verbo botar se dava, provavelmente, pela sua utilização mais comum na linguagem sexual. “Botar o pau na tua bunda”, “Botar só a cabecinha”… 

Nunca vi um homem dizer: “Tô louco para inserir meu pau na tua buceta”, “Posso introduzir no teu cu?”

Em suma, um moralista e reprimido sexual conseguiu alastrar o preconceito contra o verbo botar.

Ok, ok!!!… Alguém vai dizer que enfiar e meter também são protagonistas na linguagem sexual e nem por isso foram discriminados. Mas, querido… botar é como um curinga, cabe perfeito em quase todas as situações em que se tem que pôr algo(batom, vestido, pra quebrar, pra frente, em ordem, fogo, ovo, sentido, sal, banca, pra depois, pra funcionar, pra ferver, a mão…).

2- A nível de

“A nível de” foi uma renovação estilosa para substituir “em nível de”(âmbito, contexto, esfera, horizonte… de alguma coisa). Só que “a nível de” desceu mais redondo e deu um certo ar de intelectualidade e autoridade. Foi um sucesso!… Mas, a nível de novidade linguística, foi uma das mais execradas. Virou marca de burrice pedante. Se alastrou e trouxe como defesa para seu uso uma outra moda…

3- … A língua é dinâmica

Era super gostosinho e erudito ter que contar isso para a galera que ainda não havia alcançado essa luz.

Uma crítica à nova linguagem? Lá vem mil “professores” ávidos por explicar que: “a língua é dinâmica”; “é o uso nas ruas que faz a língua ser o que é”; “a gramática é que deve seguir o que se fala no cotidiano, e não o contrário”; blá-blá-blá…

Foi uma moda professoral! Cansou!

4- Achismo

Não vi um debate no falecido Orkut em que alguém não dissesse: “Isso é achismo”, “Não me oriento por achismos”…

Os miseráveis e pobres mortais não podiam mais dar opinião(isso mesmo!!! OPINIÃO!!!!), sem que fossem lançados ao fosso da mediocridade. E… a cobrança para que o pitaqueiro encarnasse uma enciclopédia ambulante trouxe uma outra moda…

5- … qual é a sua fonte?

Na sequência do achismo vinha a cobrança de qual era a fonte da pessoa para respaldar o que havia acabado de dizer.

Puta que pariu!!!! Você passa essa merda de vida lendo trocentos livros, ouvindo milhares de especialistas e experimentando situações reais – e coloridas. Como é possível saber exatamente de que livro, página, programa saiu a sua pérola intelectual? … E para justificar num bate-papo em mídia social!!!!

Acho que foi um surto Wikipédia!!!

6- Maiúsculas gritantes

E aí, o abestado… carente… precisando ser percebido num mar de debates e competições, colocava tudo em maiúsculas(havia também os preguiçosos que não queriam ficar mudando de maiúsculas para minúsculas).

Mas… quando isso acontecia, os plantonistas enfurecidos começavam a dizer para o sujeito parar de gritar. Vinha uma sequência de pessoas que se repetiam explicando, muitas vezes de maneira agressiva e mal-educada, que o indivíduo estava sendo… (adivinha o quê?)… agressivo e mal-educado!

 

 

7- Eu queria

Já passei várias vezes pela situação em que eu disse “eu queria esse aqui”, então o engraçadinho diz “você queria ou quer?” ou “você não quer mais não?”.

A conjugação no condicional(uma maneira educada) do verbo querer é quereria, mas quem falar assim vai parecer que está tendo um espasmo, tá entalado, que é gago ou que é uma alma penada vinda de séculos atrás.

8- Risco de vida

Gerações de seres inteligentes entendiam que “risco de vida” era uma mera expressão que tinha como sentido o risco de perder a vida. Mas… um pédaletrista resolveu que era inintendível e sem sentindo, porque o risco era de morrer. Então, deu-se uma avalanche de correções – com aquele risinho debochado da obviedade – afirmando que risco de vida é bom, pois significaria permanecer vivo. Bobões!!!!!

9- É 28

Que dia é hoje? Hoje é…(pensou durante alguns segundos)28. A pessoa que responde assim, está simplesmente ocultando a palavra dia. É dia 28. Ou… está atrapalhada, tipo: “bem…”, “hum…”, “peraí”, “xeuvê”, “hoje é…”(tudo isso chocalhando dentro dos miolos) e, de repente… EURECA!!!!!… é 28”.

Mas, obviamente, virão flexas assassinas em direção ao indivíduo dizendo são, são, são são…

 

10- Gerundismo

Ninguém nem percebia os tadinhos dos gerundinhos. Eram fluidos que nem água…até que um dia o telemarketing resolveu torná-los estrelas de um show de robótica verbal. Então, eles deixaram de ser discretos. Passaram a doer nos ouvidos das vítimas, que tinham que aguentar os vendedores gerundistas. E, claro, nasceu o movimento anti-gerúndio e, com ele, um longo período de inquisição gerundiana.

 

 

 

11- Gratidão!

Essa moda é novíssima!!! É usada principalmente em comunidades esotéricas do Facebook. Quando navegava em alguns percebi que todo mundo respondia “gratidão”… gerou estranheza!!!!. Não via ninguém responder “obrigada!”, “valeu!” “legal!”…  era só “gratidão!”. Achei que havia descoberto uma nova seita!